Blog do Döll



  • 10/02/2017
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Menos, porém melhor

Weninger aber besser, em alemão, quer dizer, menos porém melhor. Esta é a tônica do livro Essencialismo, de Greg Mckeown, que me serviu de inspiração para escrever este post, com o objetivo de sintetizar algumas crenças do autor, ilustrando-as com exemplos que vivencio diariamente.

Quem já não assistiu a uma aula em que o professor encheu uma lousa ou passou 379 slides de um determinado assunto e, no final saiu com a sensação de não ter entendido bolhufas? Você já passou pela experiência de ir a um rodízio de pizza e sair com a percepção de que nenhum sabor realmente agradou? Você consegue se lembrar de todos os cortes que experimentou num espeto corrido?

A avenida Vicente Machado e a rua Balduíno Taques representam o principal cruzamento da cidade de Ponta Grossa. Há alguns dias, uma empresa estampou uma placa na fachada do prédio de esquina que exigiria alguns minutos para ler todo o conteúdo, ao passo que pesquisas apontam que um outdoor precisa ser lido em 7 segundos, caso contrário não será comunicativo. Na linguagem publicitária, menos é mais.

Sou sócio de uma empresa que até o ano passado era especialista em administração de condomínios e pinturas imobiliárias. Como ser especialista em mais de uma área? Nos primeiros 3 meses após a decisão de focarmos em gestão condominial, a empresa viu seu faturamento crescer 50%. O essencialismo, tratado por Mckeown, não significa fazer mais, porém fazer as coisas certas.

Fazer menos, entretanto, não é tarefa fácil. Recentemente a instituição em que leciono permitiu aos alunos que redigissem artigos ao invés de monografias como trabalho de conclusão de curso. No início, todos gostaram da mudança, porém aos poucos perceberam que compactar todo um trabalho de pesquisa em um ensaio de 6 a 8 páginas, sem perder qualidade semântica, não é uma missão simples.

Vivemos num mundo cheio de opções e somos despreparados para lidar com isto. É a capacidade de escolher que nos torna humanos, já dizia Madaleine L´engle, porém precisamos nos policiar para fazer as escolhas certas. Para Michael Porter, estratégia é fazer escolhas, é abrir mão. A palavra prioridade deveria significar a primeiríssima coisa, a mais importante, e não uma lista interminável de itens.

Se você parar para analisar suas atividades, vai perceber que há muito ruído e pouquíssimas coisas têm real valor. Já parou pra pensar em quantos grupos do whatsapp você participa? Quanto tempo perde lendo todas as mensagens? Quais dos grupos é essencial para você? O segredo é distinguir o pouco que é essencial do muito que é banal. Para acompanhar as notícias, prefiro o twitter ao telejornal, pois consigo personalizar o tipo de notícia que quero receber. Deste modo, removo o que me distrai e é desnecessário.

Seguir uma meta sem hesitar parece ser o segredo do sucesso. Na minha infância, todo sábado meu pai e meus tios me levavam para pescar lambari. Certa vez, perguntei ao meu pai por que meu tio Vilmar conseguia pescar mais peixes que eu. Meu pai respondeu que, desde o início da pescaria, meu tio ficava em apenas um lugar, fazendo a chamada ceva, e ali permanecia até o final do dia.

Ao longo do tempo, o investidor Warren Buffet percebeu que 90% da riqueza que possuía podia ser atribuída à apenas dez empresas. O que você não faz é tão importante quanto o que você faz. Gosto muito da regra de Pareto, em que 80% do que gera valor pra você possivelmente está concentrado em 20% do que você faz. Ou seja, o principal é manter o principal como principal, conforme ensina Stephen Covey.

Todo dia, alguém está vendendo alguma coisa, uma ideia, um produto ou serviço em troca do seu tempo. É importante termos a segurança de dizer não, sem melindre. Precisamos aprender a praticar o sim lento e o não rápido. Dizer não tem a ver com a própria capacidade de liderança. Eliminar o que é desnecessário faz parte de uma vida simples. Abra seu guarda-roupas hoje e veja quantas peças você não usa há anos. Por que continuam ali?

Muitas vezes, preservamos muitas coisas apenas por lembrar que pagamos caro por elas. Temos uma tendência de sofrer a chamada influência dos custos perdidos. Isso ocorre quando continuamos investindo tempo, dinheiro e energia em algo que sabemos que não vai trazer o resultado esperado, seja um projeto, emprego ou casamento. Fazemos isso porque já gastamos um valor impossível de ser ressarcido nesta empreitada. Lembre-se: é melhor um fim horroroso do que um horror sem fim.

Compreendam, não estou, com este ensaio, dizendo pra você sair podando tudo na sua vida. Você não vai convencer um triatleta a só correr ao invés de treinar as três modalidades. Ser multitarefa não é algo ruim. Temos, sim, é que evitar o multifoco. Sou sócio em um pequeno grupo de soluções empresariais. Até um tempo atrás eu organizava minha agenda para falar de vários negócios em uma mesma tarde. Senti um rápido progresso em minha produtividade quando comecei a dedicar um dia para cada negócio. Continuo multitarefa, mas sem ser multifoco.

Sempre me questionei sobre a dificuldade de um clube ter um bom desempenho no campeonato brasileiro de futebol, afinal são muitos jogos e um calendário extenso. Penso que a equipe vitoriosa consegue focar em cada jogo, sem pensar na tabela. Assim deveríamos agir.  Ficamos tão preocupados com as vitórias e derrotas passadas, bem como oportunidades e desafios do futuro que deixamos passar o momento presente. Viver o presente, de modo simples, sem medo de dizer não, fazendo menos, porém melhor, portanto, é a minha sugestão para uma trajetória virtuosa.


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