Blog do Döll



  • 16/05/2017
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Seja você o motorista da sua vida!

Carl Sagan, astrônomo, escritor e poeta, contrariando os comandos da NASA, solicitou que virasse a câmera da Voyager I para tirar uma última fotografia do Planeta Terra. A sonda já havia completada a sua missão e estava deixando o Sistema Solar. A foto, capturada no dia 14 de fevereiro de 1990, ficaria conhecida mais tarde como o pálido ponto azul, também descrito pelo próprio Sagan como um cisco de poeira suspenso num raio de sol.

O Pálido Ponto Azul se tornou o título de um livro cujo primeiro capítulo traz o seguinte trecho: “Olhe novamente para aquele ponto. É aqui. É a nossa casa. Aquilo somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todo mundo de quem já ouviu falar, todos os seres humanos que existiram, viveram as suas vidas. O agregado da nossa alegria e sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e lavrador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, criança esperançosa, inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada super celebridade, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.”

Recentemente, o filósofo Mario Sérgio Cortella, com esta inusitada reflexão, acrescentou: “Tu és um indivíduo dentre sete bilhões de indivíduos, entre uma das três milhões de espécies, que vivem num planetinha entre outros sete, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas, que compõem uma galáxia entre 200 bilhões de galáxias, situada em um dos universos possíveis. Somos o vice-treco do sub-troço!”

Pessoalmente, creio que passamos um período ínfimo da nossa existência no Planeta Azul. Escolhi Sagan e Cortella para contextualizar este artigo cujo objetivo é falar sobre propósito, ou melhor, propósito de vida. Quem acompanha meus ensaios, sabe que escrevo muito sobre empreendedorismo e inovação. Antes de pensar em empreender, qualquer cidadão de bem deve primeiro pensar em propósito ou filosofia de vida.

Maurizio Tazza, um grande mestre que conheci durante minha época de pós-graduação, afirmava para os indecisos por um curso superior que deveriam estudar filosofia, pois afinal tudo deriva da filosofia. Você não perderá tempo e poderá aproveitar os conhecimentos quando finalmente decidir pela carreira que deseja seguir. Outro mestre, com quem convivi durante a graduação, Scilas Barbosa, nos questionava com frequência: “Você tem um projeto de vida? Quem tem um projeto de vida?” Na imaturidade dos nossos vinte e poucos anos, pouquíssimos arriscavam levantar a mão.

Recentemente, conversando com o amigo João Paulo Pacífico, diretor do Grupo Gaia, ele compartilhou uma afirmação pronunciada por um dos maiores headhunters do Brasil, Robert Wong: “O propósito da vida é ter uma vida com propósito”. Será que realmente temos? Ou, como ouvi uma piada um dia desses, nossa vida se resume em pagar boleto e querer emagrecer? Ao ouvir esta piada, que tem um fundo de verdade, me faz pensar que ainda vivemos como uma família neandertal, que tinha apenas dois objetivos na vida: caçar e colher alimentos.

Procuro, constantemente, tirar da cabeça dos meus alunos, o sonho de ter um carro novo quando se formarem. Há mais o que se sonhar. Além disso, as iniciativas recentes de sharing economy já nos provam que a propriedade nem sempre é algo interessante. Uber, Lyft e ZipCar tem nos mostrado isso. Aos invés de sonharem com um carro conversível, brilhantes jovens saem dos bancos universitários querendo mudar o mundo. Afinal, status não é ter um carro do ano. O verdadeiro status é aquele que existe dentro de você: seu conteúdo, suas ideias, sua capacidade de inspirar.

Com aquele mesmo ímpeto infantil que nossas crianças, vestidas com suas roupas de super heróis, tem ao brincarem e desbravarem o novo, jovens optam por mudar o mundo quando são inconformados com os problemas que os rodeiam. Empreendedores de sucesso se destacam não porque possuem ideias geniais, mas porque são inconformados inveterados. Pensar que não existem oportunidades para empreender é o mesmo que pensar que não temos problemas no mundo para resolver.

Queremos tanto encontrar respostas para o que nos aflige e provar nossa existência habitando o pálido ponto azul que muitas vezes esquecemos que antes das respostas precisamos das perguntas. Einstein já nos tinha alertado: “… se me dessem uma hora para salvar o planeta, eu gastaria 59 minutos definindo o problema e 1 minuto resolvendo…”. Negócios não existem apenas para dar lucro ou tornarem os empreendedores famosos. Startups existem e são criadas para resolver problemas, que se solucionados, vão melhorar a vida de algumas pessoas. A isso atribuímos o nome de valor. São pessoas e empresas de valor!

Larry Page e Sergey Brin, se deixassem hoje o planeta azul, já teriam gravado seus nomes como pessoas que mudaram o mundo. Talvez você só esteja lendo este post porque o encontrou no Google, que foi criado por estes dois gênios após 13 buscadores já existirem. Mesmo assim, são incansáveis e o veículo auto-guiado é um dos propósitos que os norteiam hoje.

Bill Gates, o ilustre fundador da Microsoft, já contribui bastante e teria todas as condições financeiras para “curtir a vida adoidado”, mas não. A malária é um problema mundial que o preocupa. Elon Musk, com toda sua excentricidade tem impactado a sociedade com seus empreendimentos direcionados ao setor de energias limpas e renováveis como o carro elétrico e as recém lançadas telhas que absorvem energia solar. Está conformado? Não! Sua grande missão de vida é colonizar Marte até 2024.

Exemplos como estes deixam ainda mais claro o pensamento de Clay Shirky: “…a verdadeira revolução não acontece quando a sociedade adota novas ferramentas, e sim quando adota novos comportamentos…” Toda esta abundância de informação com a qual convivemos, em que uma semana do New York Times contém mais conteúdo do que um cidadão comum do século 17 encontrava a vida inteira, não nos habilita para o sucesso. Informação não basta. É preciso atitude.

Outro fato que me convence que devemos pensar mais em propósito de vida é nosso tempo de permanência no Planeta Água. Homens e mulheres ultrapassarão os 120 anos. Só entre 2000 e 2015 a expectativa de vida aumentou 5 anos. É bem provável que a geração atual conviva com seus tataranetos. E pensar que ainda há aquele jovem universitário que não quer perder um ano da sua vida desistindo do curso que odeia. Ou aquela mãe que tem seu filho pequeno nascido nos últimos meses do ano e refuta a ideia de repetir a série.

Afinal, você é motorista ou passageiro da sua vida? Quanto estão lhe pagando por mês para você desistir dos seus sonhos? Não há nada mais valioso do que liberdade e paz. Não existe travesseiro mais macio do que uma consciência limpa. Há alguns anos fui demitido da empresa em que trabalhei por aproximadamente dez anos. Lógico, na época foi terrível, porém hoje meu único sentimento é de gratidão. Como disse Lidia Vasconcelos: “Quando me tiraram o chão, descobri que tinha asas e que podia voar…”. Afinal, o progresso é a esperança dos povos e o desespero dos acomodados.

É necessário ter foco no propósito. Recentemente, José Carlos Sardagna, um dos fundadores do Conta Azul, que já foi destaque na Forbes, me contou que o fator crítico de sucesso deles foi ter recebido um aporte financeiro que permitiu a eles focarem naquilo que realmente almejavam ao invés de pular de galho em galho sem um ideal claro e preciso.

Não importa se você é empresário, profissional liberal, professor ou analista de sistemas. O segredo de uma nova e significativa carreira se relaciona diretamente em ajudar as pessoas a se sentirem bem consigo mesmas. E se você tem se preocupado com a possibilidade de seu emprego ser substituído por uma máquina, você está certo em se preocupar. Mas tem um jeito de neutralizar este impacto. Lembre! Há um tipo de trabalho que a tecnologia dificilmente substitui: aqueles que envolvem mais do que mãos e mentes. São trabalhos que envolvem o coração.

Encontrar uma forma de atingir o coração das pessoas atrairá não só clientes, mas também pessoas fantásticas para a sua causa. Mas não fique só no discurso. Fiedrich Engels já tinha dito: “Um grama de ação vale uma tonelada de teoria.” Se você achou tudo ainda muito abstrato, jamais esqueça destas quatro palavras bem concretas: perseverança, proatividade, paixão e propósito. Lembre destes 4Ps e comece a mudar o mundo.


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